Ruído ameaça a saúde do curitibano

Nível de sons na área central da capital excede o limite da Organização Mundial da Saúde

Na Praça Rui Barbosa, decibelimetro registra pressão sonora de 74,4 dB, quando o nivel aceitável pelas normas da OMS é de 65 dB
Na Praça Rui Barbosa, decibelímetro registra pressão sonora de 74,4 dB, quando o nível aceitável pelas normas da OMS é de 65 dB

Quem passa pelas ruas e avenidas mais movimentadas da região central de Curitiba diariamente, principalmente se estiver a pé, é obrigado a conviver com o ruído de buzinas, escapamentos desregulados e até mesmo freadas bruscas. Todos esses ruídos juntos produzem sons muito acima do limite máximo estabelecido pela Organização Mundial de Saúde (OMS), de 65 decibéis, o que representa uma situação de risco para a saúde das pessoas expostas a esse nível sonoro. O excesso foi comprovado por medição feita reportagem da Gazeta do Povo em vias de grande circulação de veículos com a utilização de um equipamento cedido pelo Laboratório de Acústica Ambiental, Industrial e Conforto Acústico da Universidade Federal do Paraná (UFPR). O resultado revela um cenário preocupante: em apenas cinco minutos em vias como a Alameda Doutor Muricy e a Avenida Visconde de Guarapuava foram registradas médias superiores a 75 decibéis, com picos ainda maiores, que chegaram a ultrapassar os 95 decibéis.

Cinco minutos podem parecer um período curto demais para uma avaliação do contexto de poluição sonora de uma região da cidade, mas o coordenador do Laboratório, Paulo Henrique Trombetta Zannin, que é professor do curso de Engenharia Mecânica da UFPR, esse tempo é suficiente para obter uma medição representativa. “Esse é um tempo de medição razoável, cujo resultado pode ser utilizado como base para uma análise da produção de ruídos durante o dia inteiro em determinada localidade, principalmente em avenidas como essas, que possuem um fluxo intenso em todos os períodos do dia”, explica.

Mesmo em vias próximas a hospitais, locais onde a zona de silêncio deveria ser respeitada, a situação é a mesma. Em cinco minutos de medição na Rua André de Barros, em frente do Hospital Santa Casa, a média registrada foi de 74 decibéis, atingindo um pico de 82. Logo em frente, na Praça Rui Barbosa, dezenas de ônibus circulam durante todo o dia, produzindo ruídos constantes, e observa-se um grande medidor sonoro desativado. Do outro lado da praça, Marciane Pavani, dona de uma banca de jornais e revistas localizada na praça, conta que teve de aprender a lidar com o barulho diário. “Quando vim trabalhar aqui, já sabia que ia ser assim”, conforma-se. “Hoje já estou acostumada, mas ainda me incomodo um pouco quando os ônibus aceleram.”

Veja o gráfico.

Segundo Zannin, mesmo nos bairros residenciais é possível encontrar médias semelhantes, já que grande parte deles abriga terminais de ônibus, que são considerados os principais causadores dos ruídos mais intensos, principalmente as freadas bruscas. “Em uma pesquisa que fizemos, constatamos que o tráfego é uma das principais fontes de ruídos que incomodam os curitibanos e grande parte disso se deve aos ônibus e carros sem manutenção adequada”, comenta, criticando a falta de conscientização não apenas dos motoristas, mas também das autoridades. “O poder público deveria cobrar laudos técnicos sobre as emissões de ruídos pelos veículos e fazendo a manutenção adequada nos veículos de transporte público.” Enquanto isso, a população tenta mascarar a sensação incômoda, fechando os vidros dos carros e aumentando o volume dos rádios.


Barulho causa estresse e perda de memória: Pode parecer pouco, mas mesmo os dez decibéis registrados acima do limite estabelecido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) podem causar muitos distúrbios para quem têm de conviver com esses ruídos diariamente. Apesar de não causar surdez, médias como as registradas no centro de Curitiba podem ser responsáveis por uma série de outras doenças. “Os nossos ouvidos são muitos sensíveis ao barulho, mas a surdez decorrente da poluição sonora só acontece com pessoas que trabalham ou residem em um ambiente cujas médias de ruídos diários chegam a ultrapassar os 80 decibéis”, explica Luiz Carlos Sava, professor de Otorrinolaringologia e Distúrbios do Sono da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). “Mas as médias entre 65 e 80 decibéis podem influir no sono e causar estresse, irritação, nervosismo e até mesmo alterações gástricas.”

O professor aposentado de Neurofisiologia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Fernando Pimentel de Souza, que já desenvolveu diversos estudos relacionando a poluição sonora e a saúde, explica os efeitos dos ruídos no sono e no comportamento. “Pessoas que transitam por ambientes com ruído de fundo de 70 decibéis e picos de 85 decibéis, situação bem comum em capitais brasileiras, como Curitiba e Belo Horizonte, tendem a ficar mais suscetíveis a essas alterações psicofisiológicas porque o barulho faz com que os níveis de adrenalina, cortisol e colesterol aumentam significativamente”, afirma, alertando que a situação piora ainda mais quando se trata de indivíduos que dormem em ambientes ruidosos. “Esses podem sofrer perda de memória e dificuldades na aprendizagem. Geralmente não se percebe que o ruído é tão mortal porque ninguém vê que ele tem um efeito cumulativo a longo prazo.”


Publicado por: Gazeta do Povo – Ana Carolina Bendlin

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