Calçadas de Curitiba

Fui visitar a calçada arqueológica da Praça Tiradentes – um achado maravilhoso, e uma bela idéia de exposição. Mas, observando bem, percebi que as calçadas de Curitiba já eram ruins desde aquele tempo remoto. Uma idéia puxa a outra e especulei se o clássico temperamento fechado do curitibano não se deveria à má-qualidade das nossas calçadas. Como temos de andar sempre olhando o chão, o hábito de cumprimentar os outros, olhar o azul do céu, conversar fiado e até mesmo sorrir foi sendo substituído geração após geração pela densa filosofia do palmilhar, pela concentração em cada passo, pelo medo do tornozelo quebrado, pelo terror da entorse. Não há passo que não possa ser em falso nessas travessias perigosas. Quem sabe venha daí esse atravancamento de automóveis – para ir até a esquina, melhor pegar o carro, porque as malditas pedras no caminho não nos deixam caminhar sossegados.

Como todo bom curitibano, fui desenvolvendo técnicas de sobrevivência na rua. Isto é, a sobrevivência do andar, não o medo do assalto. Na verdade, por um lance absurdo de sorte nunca fui assaltado na vida, exceto pelas instituições já legalizadas ao longo do processo civilizatório – o imposto de renda, os bancos (esses capricham), a empresa de tevê a cabo (páreo duro), alguns restaurantes de fino trato (aquela conta com o tempero salgado), as oficinas autorizadas, as empresas de telefonia, e por aí vai. Mas assalto primário, do tipo “passe o dinheiro”, sem disfarce, nota fiscal ou Procon para nos defender, milagrosamente nunca me aconteceu. Portanto não é a clássica insegurança da vida moderna que me deixa com medo de sair à rua.

São as calçadas de Curitiba. Elas acabam sendo um bom exercício para um escritor – essa concentração na próxima linha, uma depois da outra. As técnicas: antes de mais nada, reconhecer a diferença entre as pedras brancas e as pretas, como no jogo de damas. Molhadas, as pretas escorregam;as brancas não, ou pelo menos não tanto. Dominado esse ponto – escolha bem o quadrado onde pisa – cuide do próximo, que é um trabalho de radar:adivinhar a pedra solta.

Em toda quadra há infalivelmente uma meia-dúzia de pedras soltas, erraticamente distribuídas, para o jogo ficar mais emocionante. Depois de uma chuva, elas podem ser mortais – você será eliminado do jogo, porque além da entorse há um banho de água suja na sua roupa. Volte para o início. Há também as pedras ilusoriamente simétricas, mas que ocultam um calombo, que o dedão acerta com força – em público, disfarce a dor. Já me disseram que substituir as calçadas atuais por locais apropriados ao andar humano levaria uns 100 anos. Pois eu até votaria num candidato a prefeito que prometesse substituí-las em um século. Seria um bom começo. Coisas que vou matutando enquanto, pé ante pé, cauteloso, avanço de casa ao Mercado Municipal para comprar o peixe do almoço.

publicado por: GAZETA DO POVO >> Cristovão Tezza (escritor)

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