Vendendo os bondes

Bonde em Curitiba 1939
Bonde em Curitiba 1939 *

Considera-se a data de 09 de outubro de 1871 como o marco do início efetivo do serviço de bonde em Santos e no Brasil. Um ano depois, em 1872, foi também iniciado em São Paulo e em seguida em outras cidades.

Há registro de quase 100 cidades ou distritos brasileiros com serviços de bondes, todos com histórias semelhantes, geralmente de início com os veículos de tração animal, seguidos pelos de tração elétrica, pelo declínio e fim do serviço.  Mas você sabe porque isso aconteceu?

O início
Em 1919, Burton Hendrick disse que:

Provavelmente não existe no mundo, algo que tenha contribuído tanto para o prazer e conforto das massas como o bonde elétrico.

Desde o seu surgimento no final do século XIX, os bondes foram um sucesso imediato e cresceram de forma acelerada. Quando os automóveis começaram a entrar em cena, já estavam surgindo linhas de bondes interurbanas.

Os bondes eram acessíveis a uma porcentagem muito maior da população. Além disso, construir ruas e estradas era (e ainda é)  muito mais custoso.

O declínio
Apesar de oferecer viagens relativamente confortáveis a um preço baixo, a indústria do bonde começou a enfrentar inúmeros problemas por causa da falta de planejamento, da corrupção e formação de cartéis entre os grupos dirigentes.

Ainda havia o governo que estava do lado dos automóveis subsidiando a construção e pavimentação de novas ruas, que eram tratadas como um bem público, mas utilizadas por uma pequena parcela da população. Ao mesmo tempo, o direito de circulação era visto como uma concessão do Estado. Assim, as empresas responsáveis pelos bondes deveriam, além de custear inteiramente a construção e manutenção de trilhos, pagar uma taxa ao governo. Isso gerava a falsa impressão de que o transporte motorizado particular era mais barato do que os bondes.

Apesar de todos os percalços, as vantagens do bonde sobre o carro ainda eram muito fortes, e ele sobreviveu em várias cidades.

A derrocada final se deu através de um longo e elaborado esforço de fábricas de carros, pneus e companhias de óleo que boicotaram de forma maciça as empresas que mantinham linhas de bonde.

Em muitos lugares o transporte de massas não morreu, foi assassinado.

Jonathan Kwitny
Harper’s, fevereiro de 1981

Empresas como General Motors, Firestone Tire, Standard Oil of California, Phillips Petroleum e Mack compravam e desmantelavam redes inteiras de bondes, tendo elas mesmas prejuízos enormes.  Prejuízos esses que seriam repostos, uma vez que toda a rede de bondes seria substituda por ônibus, um meio de transporte mais poluente e menos eficiente e que necessitava de ruas asfaltadas para circular, assim como os carros.

No Brasil
Essa “tendência” não custou a chegar no Brasil e em Curitiba. Em 1952 foi retirada de circulação a última linha de bondes (Portão-Tiradentes) da capital paranaense. A partir desta data, toda a prioridade em termos de transportes públicos foi centrada nos ônibus. Desapareceu, assim, uma das últimas características da tecnologia de gestão urbana inglesa, dando-se inicio à influência norte-americana.

* Foto originalmente publicada no blog Curitiba Ontem

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