Ciclista ponderado

Pegamos a dica do blog Bike Commuters que publicou esse artigo no começo de março.

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Aquilo que os motoristas sempre suspeitaram é verdade:  quando eu pego minha bici, um interruptor se desliga e a consideração por qualquer outra pessoa deixa de existir. Cada manhã, movido a ar fresco e adrenalina, eu voo pelas ladeiras das ruas do mercado de São Francisco e vou para o distrito financeiro. O meu objetivo é simples: chegar ao trabalho sem parar – ou, pelo menos, não por tempo suficiente para colocar os meus pés no chão.

Foi assim que recentemente eu me encontrei no meio de um cruzamento antes do sinal ficar verde, quando um ônibus veio correndo apesar do sinal estar fechado. Eu só evitei a colisão porque virei na direção que o ônibus estava indo, ele chegou tão perto que eu senti o beijo de aço ao longo do meu lado direito. O motorista do ônibus freiou, colocou a cabeça para fora da janela, olhou nos meus olhos aterrorizados e gritou, “Idiota!”

“Vai se foder!” Eu gritei de volta.

“Não, vai se foder você!” Ele gritou, fechando as janelas e acelerando. Os outros motoristas passaram violentamente, os que conseguiram diminuir a velocidade me olharam com cara de poucos amigos, claramente amaldiçoando a mim e meu “povo”. Os outros motoristas no cruzamento me deram o sinal universal de decepção: a maligna balançada de cabeça. O resto do tráfego de bicicletas continuou fluindo, um colega ciclista me deu um apoio simpático, “motoristas de ônibus são idiotas!” por cima de sua sacola de entregador. Eu ri com alívio e continuei pedalando; apenas uma manhã normal para os que passam pela rua do mercado a caminho do trabalho.

Agora eu sabia que era arriscado furar o sinal vermelho, eu simplesmente só não me importava. Desde que eu subi na minha primeira bicicleta, furava sinais e desobedecia leis trânsito como um furacão através do Texas. Tudo começou com a necessidade pela velocidade, óbvio – e que mau hábito não é assim?

Meu julgamento também desempenhou o seu papel. Já que eu estava me locomovendo apenas com meu próprio esforço e os motoristas estavam passivamente aproveitando a potência de um motor, eu conclui que eu merecia a preferência no cruzamento.

E então eu conheci Martha. Ela é do Centro-Oeste e é uma pessoa muito melhor do que eu. Ela é também uma ávida usuária de bicicleta, e não demorou muito para que fôssemos pedalar pela cidade. Para meu espanto, Martha respeitava todos os faróis vermelhos, pior, ela parava – parada completa – em cada sinal de PARE. Meu Deus!

Parar ao seu lado com os meus pés no chão parecia errado de todo jeito. Começavamos a pedalar novamente, devagar, só para parar de novo no próximo sinal de PARE, um quarteirão na depois. “Nós nunca vamos chegaremos”, eu pensei. “Como você consegue chegar a qualquer lugar parando a cada quadra? Isso é para motoristas de ônibus, não para ciclistas. “Tive bastante tempo para pensar sobre essas coisas enquanto pedalávamos até o nosso destino do outro lado da cidade.

No fim das contas, boas maneiras e bicicleta não são coisas mutuamente exclusivas, o que eu descobri meio surpreso. Após uma década pedalando com atitude, finalmente comecei a perceber como o hábito de pedalar mal-humorado gera diversos tipos de má vontade pelas ruas da minha cidade. Começou a parecer melhor para mim parar, colocar os pés no chão, e dar a preferência para outra pessoa. Enquanto outros ciclistas passavam por mim, eu pude ver pela primeira vez as conseqüências de nossas ações.

Eu vi como ciclistas furarem o sinal fechado e andarem costurando por entre os carros deixava motoristas frustrados pela cidade toda, infelizes de compartilhar as ruas com as bicicletas. Vi entregadores e ciclistas com roda fixa zigue-zaguenado pelo trânsito congestionado, e vi o rastro de fúria que eles deixavam para trás. Eu costumava observar isso com uma espécie de contentamento rebelde, me preocupando apenas com o meu próprio ritmo e em manter o meu momentum. Mas diminuir minha velocidade tinha despertado a minha consideração em relação a como as outras pessoas se sentiam.

Estas mudanças de perspectiva aconteceram gradualmente durante semanas de pedaladas com a Martha. Mas teve um acontecimento que tornou tudo claro e me deixou consciente de como o meu estilo de pedalar havia mudado. Eu estava começando a descer pela Rua Valencia, indo para o sul da cidade em um dia de verão, com uma longa ciclofaixa plana se estendendo na minha frente, convidativa. O sinal estava verde e eu estava pedalando rápido passando por um cruzamento quando eu vi um ônibus na minha frente, em uma parada, se preparando para entrar de novo no fluxo do trânsito.

Eu diminuí para ver se ele ia verificar o seu espelho retrovisor primeiro, o que ele fez mesmo. Ao me ver, ele me deu a preferência com sinal com a mão pela janela. Ao invés disso eu parei antes do cruzamento, próximo da roda traseira, e lhe dei passagem com um aceno e um sorriso. Com o reflexo de seu sorriso em retorno pelo espelho retrovisor, ele arrancou na minha frente.

O motorista do ônibus e eu nos cruzamos por todo o percurso na Rua Valencia naquele sábado movimentado, passando um pelo outro uma dúzia de vezes em diversas quadras. Nós fomos juntos por um mar de paradas de ônibus, carros parando e acelerando  sem sinalizar em busca de estacionamento e pedestres atravessando no sinal fechado. Normalmente compartilhar a rua com um ônibus parece competitivo ou ameaçador. Mas aquele dia na Rua Valencia, eu pude sentir muito claramente que uma boa relação de cooperação existia entre eu e o motorista do ônibus além do nosso respeito mútuo: como ele teve a gentileza de me oferecer a preferência, eu tinha retornado o favor. Em troca daquele favor, ele cuidou de mim por todo nosso percurso juntos.

Aquele passeio me deixou com uma ótima sensação, que ainda é bom de se lembrar. Graças a essa experiência com o motorista do ônibus e o exemplo da minha amiga, eu me transformei em um ciclista ponderado, compartilhando a rua com prazer e, freqüentemente, com meus pés no chão.

Publicado originalmente na revista Momentum do Canadá.

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