Por que dirigimos assim? Parte IV

Quarta e última parte da entrevista com o autor do livro: “Traffic: Why We Drive the Way We Do” (disponível em português: “Por que dirigimos assim?” ).

Continuação…

Amazon: O que é “uma estrada do perdão”?
Tom: Esta é uma escola de pensamento que diz que os motoristas são apenas humanos e que eles irão cometer erros, então vamos construir coisas para caso eles cometam erros, eles não se ferirão gravemente nem serão mortos. Parece bom em teoria, e em alguns lugares é bom na prática. Se você estiver dirigindo a 120 km/h em uma estrada e seu pneu estoura, você não iria querer uma barreira de contenção para impedir que você batesse em uma árvore? O problema é: onde você estabelece os limites? Os primeiros engenheiros de trânsito acreditavam que a estrada do perdão era uma idéia tão boa que alegaram que deveria se estender para todas as estradas do país. Mesmo as ruas residenciais, eles alegavam, não deveriam ter árvores próximas, e em vez disso deveriam ter amplas “zonas limpas” para que as pessoas pudessem  derrapar sem se matar. O problema, além do fato das estradas do perdão não embelezarem os ambientes residenciais ou a cidade, é que o princípio das estradas do perdão, pode, de fato, dar permissão para os motoristas dirigirem de maneira mais imprudente, o que não é bom para os outros motoristas, pedestres, ciclistas ou – e muitas vezes não é bom para eles mesmos. Assim como o único carro seguro é aquele que nunca sai da garagem, a única estrada verdadeiramente segura é aquela por onde ninguém nunca passa dirigindo. Tentar tornar as estradas “muito seguras” para os motoristas acaba levando a diversas consequências não previstas.

Amazon: Você escreve que “como a vida íntima do motorista começa a ser focalizada, se torna claro que não só a distração é o maior problema na estrada, mas que temos pouca noção de quão distraídos somos.” Você poderia explicar isso?
Tom: Para te dar uma idéia, eu fiz um teste em um simulador de direção. Eu estava fazendo um tipo de exercício de lógica com um telefone viva-voz enquanto eu dirigia em uma estrada. Eu bati na traseira de um caminhão. Quando eu vi o programa que acompanhou meu olhar, ele estava fixo na parte de trás do caminhão. Eu percebi quanto eu estava distraído? Nem um pouco. Pense em quando você se distrai quando tem alguém falando com você. Você só se dá conta do que fez quando perguntam se você estava ouvindo. Ou pense no famoso experimento do vídeo do urso. Você está tentando prestar atenção às pessoas jogando basquete e dando passes uns aos outros. Entretanto, um cara vestido de urso passa dançando pelo meio. A maioria das pessoas não o vê. Você está distraído do gorila pelo ato de contar os passes, mas você não faz idéia. Esse tipo de coisa, assustadoramente, acontece todo o tempo ao dirigir. Existem momentos que sabemos que estamos distraídos de alguma forma, como discar um número de telefone automaticamente, mas outras vezes não estamos conscientes da extensão da nossa distração, porque pensamos que estamos prestando atenção.

Amazon: Você escreve sobre os automóveis e as tecnologias do futuro e como você diz, “É provavel que não seja acidental que sempre que se fala de uma “tecnologia inteligente”, remete a algo que tenha retirado o controle humano.” Será que estamos nos encaminhando para automóveis sem motoristas?
Tom: Já estamos definitivamente na era dos carros “auxiliares do motorista”, com advertências de ponto-cego, controle de  velocidade automática adaptáveis e similares. Como as pessoas que estudam automação devem ter notado, esses mecanismos “semi-automatizados” são acompanhados de desafios muito particulares – motoristas podem relaxar e diminuir sua vigilância, pensando que está tudo bem graças à tecnologia do carro, mas alguma coisa pode acontecer que acabe confundindo o sistema do carro, e de repente o motorista é pego desprevinido. Esse tipo de coisa tem sido visto em acidentes de companhias aéreas. Dito isto, se fosse para ser totalmente viável, direção completamente automatizada teria vários tipos de benefícios, desde um fluxo de trânsito mais suave até uma redução das batidas. Mas isto está bem distante – as questões legais, por exemplos, são inúmeras – mas talvez no ano 2050, como no filme Minority Report, nós todos teremos pequenos automóveis autônomos ligados a uma rede …

Amazon: Se você tivesse que escolher entre a grande variedade de recomendações, o que seriam algumas das coisas que você recomendaria para tornar as nossas estradas mais seguras e nosso trânsito menos enlouquecedor?
Tom: 1. Preste atenção na tarefa em questão. Você está operando uma máquina pesada, não dirigindo uma grande cabine telefônica ou um espelho de maquiagem. Cada olhar para fora da estrada, cada telefonema, cada desvio de atenção para o seu último McNugget, não só atrapalham o fluxo do trânsito, aumentam o risco de um acidente, que é em si uma das principais causas de congestionamento. Embora muitas vezes leiamos sobre a quantidade de dinheiro que estamos perdendo por causa dos congestionamento de trânsito, o que as pessoas muitas vezes usam como razões para construir mais ruas e estradas, tem se estimado que acidentes custam mais em termos econômicos, do que os congestionamentos em si. 2. Lembre-se das formigas. Exércitos de formigas estão entre os melhores usuários de trânsito do mundo, por um único motivo: elas todas colaboram. Elas se movem em uníssono, elas ajudam umas as outras, o indivíduo não considera seus próprios interesses acima do fluxo do trânsito. Nós todos queremos afirmar a nossa individualidade, nosso sentimento de superioridade na estrada, mas como todo mundo faz isso, torna-se pior para todos, e todo o sistema piora. 3. Tenha em mente que você não é um motorista tão bom como que você pensa que é. Nas estradas, vamos mais rápido do que a nossa história evolutiva nos preparou para irmos. Nós lidamos muito bem com essa velocidade independentemente disso, mas ainda estamos suscetíveis a diversos tipos de falhas e distorções no nosso equipamento sensorial e de tomada de decisão. Só porque seus olhos estão na estrada e suas mãos no volante não significa que você esteja realmente preparado para lidar com uma emergência. 4. Não podemos construir o nosso caminho para fora do trânsito, mas podemos pensar na nossa saída. Construção de mais estradas quando já estão sub-financiadas não parece viável, e considerando que a maioria das estradas estão congestionadas apenas parte do tempo, não é realmente a solução mais eficiente, por diversas razões. Como um ex-engenheiro da Disney me disse quando eu perguntei porque é que não basta construir mais brinquedos ao invés de se preocupar com novas formas de gerenciar as longas filas de espera, “você não constrói uma igreja para o Domingo de Páscoa”. Mas ser capaz de dar um jeito em um carro com problemas rapidamente porque sensores detectaram que o trânsito mudou, saber que vias estão congestionadas em determinado momento e, possivelmente cobrar de acordo; ou talvez fazer com que os semáforos se adaptem à demanda – ou se livrar de semáforos de uma vez por todas – existem inúmeras soluções inovadoras por aí que são mais sofisticados e mais sustentáveis do que simplesmente asfaltar mais vias, e que não implicam necessariamente em não dirigir – embora essa seja obviamente a solução final para o trânsito.

Amazon: Bom, então a grande pergunta. Sabemos que você aprendeu muito sobre o trânsito, mas o que você aprendeu sobre nós, seres humanos, por trás do volante?
Tom: Em uma palavra, que nós somos … humanos! Nós cometemos erros, nós julgamos mal nossas habilidades, não estamos tão conscientes do que está acontecendo no trânsito como pensamos que estamos, agimos de modo diferente em diferentes situações, ficamos bravos com coisas que importam pouco a longo prazo, somos suscetíveis a alterações na nossa noção de tempo, temos dificuldade de viver além do momento presente, de enxergar de forma ampla – e também que todo mundo tem uma opinião diferente sobre quem são os piores motoristas e onde eles vivem … “Los Angeles! Motoristas de Los Angeles são os piores … Não, Atlanta têm motoristas terríveis … De jeito nenhum, os motoristas de Boston são loucos…”. Faça esse teste com seus amigos um dia desses.

Veja a parte anterior da entrevista.

Amazon:

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