Mais ciclistas, menos acidentes

Um estudo dos lugares mais seguros e mais perigosos para se pedalar na Grã-Bretanha, divulgado dia 07/05/2009, mostra que onde há mais ciclistas nas ruas, geralmente a taxa de acidentes é mais baixa, enquanto que nos lugares menos populares para ciclistas, pedalar pode ser notavelmente mais arriscado.

Contrariando a ideia de que vários ciclistas inexperientes tomando as ruas aumenta o número de mortos e feridos, a pesquisa realizada pelo Clube de ciclismo turístico – CTC, a principal  organização de ciclistas do Reino Unido, categoriza áreas municipais na Inglaterra em uma escala de A a E, de acordo com o nível de segurança delas.

A tendência é clara, com áreas populares para ciclistas tendendo a serem mais seguras, em média, com diferenças as vezes significativas. No topo da lista está a tradicionalmente bike-friendly York, onde cerca de uma em oito pessoas vão de bicicleta ao trabalho, e 0,1% são gravemente feridos em acidentes por ano. Não muito longe dali, Calderdale, um município próximo de Halifax, está no outro extremo. Lá menos de 1 em 120 pessoas utilizam a bicicleta, e aqueles que o fazem enfrentam um risco 15 vezes superior ao de York.

Outras áreas classificadas como “A” na escala e perto do topo da lista das mais seguras incluem Hull, Lincolnshire e Cambridgeshire, enquanto outras classificadas como “E” incluem Bradford, Blackburn e Kirklees.

“Embora este seja um guia útil, gostaríamos também de enfatizar que mesmo as áreas aparentemente não seguras não são na realidade perigosas, e que ainda é muito melhor para a saúde pedalar do que não pedalar, independente de onde você more”, disse Chris Peck, coordenador da CTC. “É importante que as pessoas não sejam desmotivadas a pedalar.”

O fenômeno da segurança em número – o nome dado a uma nova campanha do CTC – pode ser visto em toda a Europa. Outros números compilados pela organização mostram que, na Dinamarca, topo da liga continental de ciclismo, uma pessoa pedala em média, por ano, 10 vezes mais do que seus colegas britânicos, mas se expõe a apenas 20% do risco de serem mortas.

De acordo com Peck, as razões para essa proporção inversa são muitas e incluem a probabilidade de uma melhor infra-estrutura para bicicleta em áreas onde mais pessoas pedalam; o fato de que se motoristas também pedalam ocasionalmente, é provável que eles sejam mais cuidadoso com os ciclistas; e a curiosidade estatística que uma proporção maior de ciclistas em áreas de baixo trânsito de bicicletas tendem a ser homens jovens, com um limiar para o risco acima da média.

“É um círculo vicioso: as pessoas se sentem seguras, elas conhecem várias pessoas que também andam de bicicleta e dizem, ‘É tranquilo, vem você também. É inclusive uma maneira agradável de se deslocar'”, disse Peck. É muito mais provável que as pessoas andem de bicicleta se elas conhecem um amigo ou um vizinho que pedale também.

Incentivar os ciclistas superou as expectativas dos políticos britânicos por muitos anos, tanto em eventos nacionais como em eventos locais. Embora muitos mais britânicos tenham aderido às bicicletas nos últimos anos, impulsionados por fatores que incluem saúde e sucesso olímpico nacional, apenas 2% de todos os deslocamentos são feitos de bicicleta. Na Holanda, o valor equivalente é de 27%.

Afetados pelo sucesso holandês, um grupo de políticos britânicos acaba de voltar de uma viagem esclarecedora ao país. Lá, junto com toneladas de informações sobre ciclovias e estacionamentos seguros, eles tiveram acesso ao menos conhecido segredo para incentivar uma cultura nacional de bicicleta: jogar fora a Lycra e os capacetes.

Os peritos, que levaram o grupo para um tour pela inigualável infra-estrutura cicloviária holandesa, alegaram que a melhor maneira de seduzir as pessoas a usarem a bicicleta é retratar o ciclismo como uma atividade cotidiana, não só de jovens com uma atitude subversiva e um guarda-roupa cheio de blusas justas com cores chamativas.

“Se você realmente deseja ter um monte de gente de bicicleta, uma coisa que as pessoas precisam é se sentir seguras pedalando. É a percepção de segurança que é tão importante”, disse Hans Voerknecht do Fiets Beraad Holandês, do conselho de ciclistas.

“Não deve ser uma subcultura fringe. Para os ciclistas você poderia chamar guerrilha urbana. Você nunca terá pessoas comuns pedalando se essa for a imagem que elas verem.”

Voerknecht salienta que apenas uma pequena minoria dos ciclistas holandeses usam capacetes, e enquanto alguns entusiastas se aventuram em pleno Tour de France, eles são oprimidos por uma maioria esmagadora que pedala para o trabalho, escola ou lojas, usando roupas do dia-a-dia, e até mesmo roupas formais e ternos.

Peck do CTC, que acompanhou os políticos na viagem para a Holanda, concorda que a imagem do ciclismo na Grã-Bretanha precisa de uma revisão geral.

“Capacetes e coisas desse tipo dão essa impressão de que pedalar é uma atividade inerentemente perigosa, e toda essa imagem de guerrilheiro urbano não ajuda muito”, disse ele. “Mas, evidentemente, grande parte da agressividade é uma questão de ter que competir por espaço e prioridade com os carros.”

Isto é, naturalmente, um ponto fundamental. Enquanto ciclistas holandeses desfrutam de ciclofaixas exclusivas, estacionamento seguro em todas as estações de trem e a certeza automática de inocência em qualquer colisão com um carro, a situação no Reino Unido é muito diferente.

Segundo a Voerknecht, muito do planejamento ciclístico do Reino Unido é muito fragmentado para ser verdadeiramente eficaz. “Eles constroem 1 km de uma ciclofaixa que não tem continuidade. E as pessoas que constroem ficam impressionadas porque ninguém usa. Você pode ter 50 km de ciclofaixas, mas se forem 50 vezes de 1 km, então ninguém vai usá-las. Você tem que fazer de forma consistente”.

“Se eu levesse um ciclista holandês para uma cidade britânica e dissesse, ‘O que você acha da infra-estrutura para bicicleta?’ eles diriam, ‘Que infra-estrutura para bicicleta? Onde? Eu perdi?’ ”

E também, claro, há o fator que nenhum governo pode mudar: topografia. Como na Holanda, as áreas da Inglaterra que favorecem os ciclistas também tendem a ser as planas.

Ciclo-faixa para lugar nenhum
Sean Smith, um web designer de Halifax, usa a bicicleta há 30 anos em Calderdale, classificada como a área menos segura para ciclismo da Inglaterra.

“Talvez eu já esteja acostumado a isso hoje em dia, mas o trânsito pode ficar bem pesado e bem rápido. Existem algumas ciclofaixas demarcadas, mas elas desaparecem quando há um estreitamento de pista, então acabam não tendo muita utilidade. Seis meses atrás eu fui empurrado de minha bicicleta, deliberadamente, por alguém se debruçando para fora do carro e quebrei o meu pulso. Mas o que quer que você faça para encorajar o uso da bicicleta, existe sempre o problema da geografia do local. Pra onde quer que você vá, você vai encontrar umas ladeiras, algumas vezes bem íngremes. Isso sempre vai afastar alguns ciclistas casuais.”

Andy Shrimpton é proprietário da Cycle Heaven , uma loja de bicicletas que fica em York, considerado o local mais seguro para pedalar na Inglaterra.

“Temos o que podemos chamar de cultura residual da bicicleta, herança do passado – quando os turnos mudavam na fábrica Rowntree, as ruas se tornavam uma massa de bicicletas. O trânsito no centro é muito ruim também, o que encoraja as pessoas a usarem a bicicleta. De certo modo, tem sido bem fácil para o governo, já que temos o rio e os parques, delimitar ciclofaixas. Mas quando se fala de tarefas mais complicadas como alterar o fluxo dos carros, eles não fazem um trabalho tão bom assim. O volume do trânsito de bicicletas com certeza ajuda. A cultura ciclista não é menos agressiva do que em outros lugares, particularmente Londres.”

Nota do tradutor: Curitiba tem mais semelhanças com qual dos dois perfis?

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