Tornando as cidades atuais livres de carros – parte I

Vizinhança sem carro
Vizinhança sem carro

É urgentemente necessário criar e promover novos modelos de urbanismo que sejam menos carro-dependentes e que permitam a livre escolha do modo de transporte. Com isso, existe uma necessidade em pensar novos sistemas de planejamento urbano, mas também sobre a possibilidade de converter locais já existentes em áreas sem carro. Durante as últimas décadas, modelos urbanistas dedicados ao carro têm se espalhado por todo o mundo e agora o desafio é se afastar dessa evolução. E é esse caminho seguido por Joel Crawford neste artigo.

O protocolo de Lyon revisitado
Um dos muitos frutos da primeira Conferência Em Busca de Cidades sem Carros (Towards Carfree Cities) sediada em 1997 na cidade de Lyon, França foi o esboço de um documento conhecido como “Planejamento e Execução de Grandes Distritos sem Carros nas Cidades Atuais.” Eu fui um dos autores desse documento que posteriormente passou a ser referenciado como o Protocolo de Lyon. Foi um trabalho feito às pressas e até onde eu saiba ainda não foi revisado. Eu reli e fiquei feliz em notar que ele continua válido após doze anos. Alguns dos princípios que ele estabeleceu foram expandidos mais recentemente no Carfree Design Manual (não publicado em português) onde é considerado fundamental que o planejamento e a decisão de uma vizinhança sem carros deva ser feita em grande parte pelos seus próprios moradores.

Vamos começar com uma olhada rápida no Protocolo de Lyon. Antes de tudo, ele reconheceu os efeitos da escala. Execução de projetos pequenos seriam bem diferentes de grandes projetos. Foi reconhecido que qualquer conversão em grande escala teria como requisito a participação desde o começo de todos os indivíduos e organizações que fossem afetadas, incluindo pessoas fora da área da conversão propriamente dita. Conflitos devem ser identificados no início, antes de se tornarem problemas e um amplo apoio para os projeto deve ser desenvolvido. Um processo de captação de dados incluindo mapeamento, estudos demográficos e oferta de transporte são alguns dos passos iniciais. Toda a informação disponível sobre o local é necessária. Isso é um volume imenso de dados, mas grande parte é obtido rotineiramente por órgãos oficiais de planejamento urbano.

Um grupo de trabalho deve então desenvolver um conceito preliminar. Isso inclui as fronteiras da área sem carros, propostas de mudanças na circulação de tráfego, medidas para redução de tráfego e por fim o plano para a área sem carros. Em particular, transporte de carga e o trânsito de passagem precisam ser cuidadosamente analisados, visto que essas preocupações podem acabar com o projeto na sua fase incial. Implantação gradual também foi mencionada como uma preocupação inicial visto que mudanças drásticas é politicamente inviável. Uma aobrdagem do tipo “trilha de migalhas” poderia encorajar boas práticas e desencorajar as más práticas.

Infraestrutura para o transporte público, pedestres e ciclistas seria melhorado. Medidas adotadas para tornar o tráfego mais lento, reduzir o espaço dedicado aos carros e restringir estacionamentos. Vagas nas ruas próximas ao centro seriam as primeiras a sumir. O acesso de carros estaria  cada vez mais afastado da área central encorajando as pessoas a usarem ônibus ou bicicletas. O estacionamento pago teria um aumento considerável num período de poucos anos. O uso do automóvel reduziria aos poucos. Os primeiros a irem seriam carros particulares de não-residentes, seguidos posteriormente pelos carros particulares de residentes. Células de tráfego desencorajaria as viagens através da cidade. Permissões para estacionar seriam vendidas apenas com um cartão de transporte. Uma mudança final é a conversão do transporte de carga. Dos caminhões de entrega convencionais para o sistema escolhido (a restrição de horário para acesso de caminhões é uma alternativa). No final, apenas veículos de emergência seriam permitidos.

A mídia é fundamental para um bom resultado, mas planos específicos não devem ser divulgados com muita pressa. O terreno deve ser preparado com uma longa discussão dos problemas causados pelos carros e as alternativas que resolvem esses problemas. Os benefícios são muitos e precisam ser destacados desde o começo. Se não lidar com isso adequadamente, a resistência pode aumentar num estágio inicial. O processo é inerentemente político, e o apoio de políticos locais é essencial. Para garantir amplo suporte, o plano conceitual é apresentado a cada grupo afetado para discussão. Á medida que necessidades não previstas são reveladas, eles afetarão o plano. O processo de contatar grupos e reposnder aos seus pedidos dev continuar até que todos os obstáculos mais sérios sejam superados.

Próximo ao fim do processo, uma oficina intensiva de planejamento com aproximadamente uma semana de duração pode ser realizada para lidar com os mais teimosos e garantir o apoio de todos os interessados. Essa oficina pode ser patrocinada pelo município que a esta altura deve apoiar fortemente o projeto. O objetivo principal seria obter o consenso. O órgão municipal de planejamento urbano desenvolveriam os planos finais e detalhes da conversão gradual. Certifique-se que os planos finais do governo respeita esse consenso. Grande modificações não devm ser adotadas sem ampla discussão.

Publicado originalmente em julho de 2009 por Joel Crawford na Revista Carbusters nº 38.

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