Em processo de desintoxicação – parte II

Texto publicado originalmente no blog DoRabuja por Nicholas Arand.

Veja também a Parte I.


Hoje, apesar de melhor, ainda sou bastante dependente. Minha contagem mostra progresso: primeira semana fiquei dois dias limpo, na segunda o tempo frio e chuvoso de Curitiba me desanimou e tive uma pequena recaída, só consegui a façanha uma vez. Terceira semana consegui três dias, e na quarta, o mesmo número mas com dois dias seguidos, sinal claro que a dependência física pode ser vencida com um pouco de persistência.

 

Hoje estou estacionado nos três dias limpos por semana, mas convicto de que em pouco tempo conseguirei romper a barreira impostas pelas sequelas da dependência prologada, pulando para os cinco dias da semana, faça chuva ou faça sol.

Acho que posso dizer que sou dependente a cerca de 12 anos, começou a ficar sério alguns meses depois de minha primeira carteira, quando comprei meu próprio carro e pela primeira vez me senti realmente livre.

Livre para ir e vir, levar a namorada para sair, ir a bares, voltar altas horas totalmente embriagado, de felicidade, realização e álcool. Indo um pouco mais fundo, lembrando de minha infância e presenciando agora o desenvolvimento de meu próprio filho, começo a realizar que as raízes de minha dependência estão muito além de minha primeira carteira.

viciado do começo ao fimAs brincadeiras de criança, filmes de televisão, comerciais, as próprias atitudes de meus parentes mais próximos e de toda a sociedade a minha volta, tudo exerceu influência nas minhas decisões, e tudo fez com que o problema não fosse percebido facilmente por mim.

Conheço muita gente que sofre do mesmo vício mas não o percebe como tal, pior, negam, e mesmo depois deste meu depoimento, certamente continuarão negando. Como eu, estas pessoas abusam da substância, do planeta, e sempre que o fazem se sentem melhores, mais capazes, algumas se sentem até indestrutíveis.Colocam seu corpo em situações de risco, forças físicas para as quais nós seres humanos não fomos adaptados a suportar.

A sensação de poder, superioridade, proteção e realização que o uso da droga proporciona é dificilmente igualável.

Entorpecidos e dependentes, vejo parentes e amigos se comportarem de forma selvagem, totalmente diferente da postura amigável das situações corriqueiras. Xingamentos, individualismo, egoísmo, classicismo, falta de respeito com o próximo, não são comportamentos incomuns nos usuários de hidrocarbonetos.

Continua na próxima semana…

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