Em processo de desintoxicação – parte III

Texto publicado originalmente no blog DoRabuja por Nicholas Arand.

Veja também a Parte II.


Principal causa de morte no mundoEstatísticas nem sempre são confiáveis, dependem muito de quem paga por elas, mas são um bom indicador. Segundo elas, este problema já mata mais que o cigarro, direta, ou, digamos, “passivamente”. Foram mais de 254 mil pessoas mortas em acidentes nos último 8 anos, uma média de quase 32 mil por ano. Algumas pesquisas indicam que cerca de 11 mil pessoas morrem por ano em decorrência da poluição causada pelos automóveis, isso só nas 6 principais capitais do país, onde o problema já passou de crônico.

 

Somando estas duas frentes, a ativa e a passiva, temos 65 pessoas morrendo por hora, de acordo com estudos, seis vezes mais que o tabagismo, que mata cerca de 10 pessoas por hora no Brasil, isso porque não estou contando os ainda controversos e incompreendidos efeitos colaterais da depredação do planeta para a extração de matéria-prima e energia para a manufatura e descarte de toda a tropa mundial.

Não quero começar uma discussão sobre qual droga é mais pesada pois não é esse o ponto, quero apenas encontrar comparativos para o problema e demonstrar não somente que o automóvel é realmente um vício, mas que nas proporções atuais de uso e consumo, é um vício que mata. E mata muita gente.

Quando resolvi que lentamente tentaria trocar o carro pela bicicleta, percebi que além de todos os sintomas comentados anteriormente – que meu corpo dependia cronicamente do automóvel, que meu modo de vida dependia do automóvel – percebi também que socialmente, de uma forma muito mais ampla, esta droga vicia de forma sistêmica.

Possuir um carro passou a ser a ambição das pessoas, desde criança.

Não usa-lo uma vez que o possui, passou a ser considerado insanidade. “Por quê você vem de bicicleta?”, me perguntam no trabalho. Costumo responder que é “porque preciso trabalhar para viver”. Existe uma pressão social para o uso do carro.

Mundo dos carrosA cidade, não somente seus cidadãos, está viciada em carros. Calcula-se que 70% do espaço urbano público está destinado aos automóveis, veículos estes que transportam apenas 17% da população. Quanto mais carros mais trânsito, quanto mais trânsito mais avenidas, quanto mais avenidas, mais carros, e assim sustentamos um dos ciclos viciosos mais rentáveis da história (depois das guerras), enquanto a grande maioria dos cidadãos são cada vez mais espremidos no pouco que lhes sobra, em calçadas e ciclovias estreitas e esburacadas, em ônibus e terminais super lotados.

O sistema econômico, não apenas a cidade, está viciado em carros. Frente a crises, países lançam incentivos acima de 2 mil dólares por cidadão (abastado) para fomentar a compra de mais carros, girar a economia e gerar empregos, pior, com a desculpa de que assim estaríamos ajudando o meio ambiente.

Outros cortam impostos, lançam financiamentos, para garantir que o sistema de enriquecimento que sustenta os bolsos mais abastados do país não entre em falência. Esta indústria, se somada à da dos combustíveis que alimenta a tropa, já parece ser uma das principais de nosso país. O governo, não só o sistema econômico, está viciado em carros, e é incapaz de vez uma saída diferente.

Tem como sairmos dessa? Neste país, minha esperança é pouca mas ainda não acabou (se não não estaria rabujando aqui). Mas por que tanto negativismo? Porque essa mudança exigiria algumas bases que não temos hoje, e talvez sejam necessárias algumas gerações de população e consequentemente de políticos para passarmos a tê-las. Estamos falando de um pouco mais do que investimento em transporte público e ciclofaixas, mas também de consciência coletiva, mudança de valores e vontade pública e política.

Continua na próxima semana…

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