Em processo de desintoxicação – parte IV

Texto publicado originalmente no blog DoRabuja por Nicholas Arand.

Veja também a Parte III.


Modelo de vidaMudanças culturais positivas ocorrem de cima para baixo. É como educação ou altruísmo, precisam ser ensinados e cobrados por alguém, difícilmente vão surgir espontaneamente em nossa espécie.

 

No nosso modelo de democracia, no qual o povo, que não sebe o que está fazendo, elege políticos por interesse próprio, e estes atuam em interesse próprio, ou no máximo representando o interesse próprio de seus eleitores ou patrocinadores (qual a diferença?), inclusive garantindo que o povo continue sem saber o que está fazendo, dificilmente surgirão forças políticas benevolentes capazes ou motivadas a lutar contra o sistema, impondo transformações sociais positivas realmente relevantes. Para começar é este ciclo que precisaria mudar, e essa é apenas a parte mais difícil, não a única.

Iniciada a vontade e poder de de mudança ainda tem o vício econômico que precisaria ser resolvido, aí talvez o mundo sinta a maior síndrome de abstinência de todas. Temos toda a indústria automotiva, que invariavelmente seria bastante freiada por isso, com ela as auto peças paralelas, a indústria de combustíveis, postos de distribuição, oficinas mecânicas e auto-centers.

Faça um teste na avenida comercial mais próxima a sua casa: quantas lojas de carro tem? quantos postos de gasolina? quantos auto-centers? quantas lojas de som ou “tunning” automotivos? Compare com a quantidade de verdureiros, teatros, livrarias (pode somar esses últimos se quiser)?

No meu bairro é mais fácil instalar insufilme ou abastecer o tanque do que comprar um quilo de abobrinhas.

Mas isso também só depende de vontade pública. Todo este comércio surgiu para abastecer o mercado. Se o mercado mudasse, a oferta mudaria com ele, e poderíamos ter em todos o bairros, pequenos distribuidores de alimentos orgânicos, frescos e de qualidade, mais livrarias, teatros, e onde temos hoje nosso singular Mercado Municipal ou nosso único Ceasa, poderíamos ter um singular posto de gasolina e um auto-center. Exagero?

A “lista online” aponta, em Curitiba, 442 endereços para “carros usados”, 248 relacionados à palavra “gasolina” e 173 para “Auto-Center”, contra apenas 33 para “Legumes”, 81 para “livraria” e 13 para “teatro”. “Bicicleta” retorna 35 endereços. Acredito que a experiência em que estou metido (tentando largar o vício) pode servir de exemplo.

Antes de começar a andar de bicicleta, tive que perceber que minha conexão psicológica e física com o carro era um problema.

O investimento, uma boa Caloi 10, veio depois e só a partir daí começou a haver mudança. Da mesma forma, antes de construir quilômetros de ciclofaixas ou comprar centenas de ônibus, é preciso conscientizar as pessoas de que o excessivo uso do automóvel é um problema, se não as ciclofaixas vão acabar vazias e abandonadas, ou virarão (como acontece) pista de cooper, estacionamento, ou “moto-faixas”, e os ônibus ficarão muito caros para os poucos passageiro que não tem dinheiro para comprar um carro.

Hoje vemos em comerciais imagens de automóveis reluzentes viajando em alta velocidade por avenidas livres, belas estradas e paisagens estonteantes, e enquanto os consumidores sonham com o automóvel reluzente, não percebem que o que eles realmente precisam são as avenidas vazias, belas estradas e paisagens estonteantes!

Os valores estão invertidos, e antes de qualquer coisa precisam ser realinhados.

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