A industrialização do movimento – parte I

As pessoas se movem bem sobre seus pés. Este meio primitivo de se locomover, em uma análise mais aprofundada, parece bastante eficaz quando comparado com o grande número de pessoas em movimento nas cidades modernas ou em fazendas industrializadas. Ele parecerá particularmente atraente, uma vez que tenha sido entendido que os americanos modernos, em média, cobrem a pé a mesma quantidade de quilômetros que os seus antepassados – a maioria dos quais, no entanto, através de túneis, corredores, estacionamentos e lojas.

Pessoas sobre seus pés são mais ou menos iguais. As pessoas que dependem exclusivamente de seus pés se movem no calor do momento, entre 4 a 6 quilômetros por hora, em qualquer direção e para qualquer lugar para o qual elas não sejam legalmente ou fisicamente impedidas. Uma melhoria neste grau de mobilidade natural pela tecnologia de novos transportes deveria salvaguardar esses valores e adicionar alguns novos, como a maior escala, economia de tempo, conforto, ou mais oportunidades para os deficientes. Até agora, não é isso o que vem acontecendo. Em vez disso, o crescimento do setor de transportes tem, em todos os lugares, o efeito inverso. Desde o momento em que as máquinas puderam adicionar que seja um cavalo de potência a qualquer passageiro, esta indústria se tornou redutora de igualdade, promotora de mobilidade restrita a um sistema de rotas definidas industrialmente e da escassez de tempo livre, de gravidade sem precedentes. Quando a velocidade de seus veículos cruza um determinado umbral, os cidadãos são transformados em consumidores de transporte …

Mais energia alimentando o sistema de meios de transporte significa que mais pessoas se movem mais rapidamente, a uma variedade maior de destinos e distâncias ao longo de cada dia. O raio de ação de todo mundo se expande à custa de deixar de ser capaz de estar dentro de um ambiente conhecido ou de fazer um passeio pelo parque no caminho para o trabalho. Extremos do privilégio são criados à custa desta escravidão universal. Uns poucos montam em seus tapetes mágicos para viajar a pontos distantes onde sua presença se torna efêmera, escassa e sedutora, enquanto a maioria é obrigada a viajar mais longe e mais rápido e a gastar mais tempo para preparar e se recuperar de suas outras viagens.

O turista compulsório e o viajante cativo se tornam igualmente dependentes do transporte. Nenhum dos dois pode fazer nada sem ele. Ocasionais passeios a Acapulco ou a um congresso do partido enganam o passageiro comum e fazem-no acreditar que ele tenha feito isso em um mundo encolhido pelos poderosos meios de transporte acelerados. A oportunidade ocasional de passar algumas horas preso em um assento de alta potência o torna cúmplice de uma distorção do espaço humano, e o impulsiona a dar autorização para a concepção da geografia de seu país em torno dos veículos, em vez de em torno de pessoas.

Como é que você vai ?
Como é que você vai ?

O macho norte-americano típico dedica mais de 1.600 horas por ano para seu carro*. Ele senta-se nele enquanto ele vai e quando está em marcha lenta. Ele o estaciona e procura por ele. Ele ganha dinheiro para colocar em baixo dele  e sobre ele e para fazer frente a suas prestações mensais. Ele trabalha para pagar a gasolina, documentos, seguros, impostos, e multas. Ele passa quatro de suas dezesseis horas de vigília na estrada ou arrecadando recursos para isso. E este número não leva em conta o tempo consumido por outras atividades ditadas pelo transporte: o tempo gasto em hospitais, tribunais, departamentos de trânsito e garagens; o tempo gasto assistindo comerciais de automóvel ou a assistir a reuniões de educação do consumidor para melhorar a qualidade da compra seguinte.

O macho norte-americano investe 1.600 horas para conseguir 7.500 milhas: menos de cinco milhas por hora. Nos países privados de um setor de transporte, as pessoas conseguem fazer o mesmo a pé, onde quer que seja que elas decidam ir, alocando apenas 3-8 por cento do seu tempo para o tráfego em vez dos 28 por cento citados anteriormente.

O que distingue o tráfego nos países ricos do trânsito em países pobres não é a quilometragem por hora de vida gasta pela maioria, mas a quantidade de horas de consumo obrigatório de altas doses de energia, empacotados e distribuídos de forma desigual pelo setor de transportes.

Toward a History of Needs, ILLICH, Ivan – 1984 – Traduzido por Claudio Oliver


*Os brasileiros já gastam tanto com transporte quanto com alimentação, uma situação até então inédita no país. A Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2008-2009, divulgada hoje pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostra que o gasto médio com alimentação no país é de R$ 421,72, ou 16,1% dos gastos totais (R$ 2.626,31), enquanto o custo do transporte no orçamento familiar atingiu R$ 419,19, ou 16% do total.(Valor Online, 24/06/2010).

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