Da dificuldade de existir sem barulho

Por que favorecer a bicicleta e não a moto ou a scooter? Questionar isso, é fazer pouco caso do desconforto sonoro e olfativo (uma Harley-Davidson faz tremer os vidros 10 minutos após sua passagem). Ou, o critério que nos fez plebiscitar a bicicleta, no meio de todas essas preocupações da modernidade, é essa capacidade de se fundir ao espaço circundante até o ponto de se tornar um elemento natural do mesmo.

A bici corta sutilmente a atmosfera, que volta a se cerrar atrás dela sem nem mesmo turvar a água no seu rastro como faria uma frágil canoa num mar de óleo. O delicado atrito dos pneus não pertubou o silêncio, do qual a qualidade, assim como a do ar, permanece a mesma após sua passagem, até mesmo quando um “trim-trim” da buzininha teve que ser acionado – mas como se sentir agredido por esse doce tilintar da infância, tão próximo na nossa memória afetiva à voz maternal que nos chama para entrar e lanchar (café com leite e pão de queijo) ?

A Scooter é definitivamente inimiga da bicicleta. Não no asfalto, mas no espírito. Qualquer um que tenha experimentado andar com a scooter na cidade, sua grande mobilidade, sua velocidade, sua incomparável manobrabilidade, seu conforto e certamente sua total falta de esforço físico, está perdido para bicicleta. Dificilmente ele voltará a montar sua antiga magrela, que lhe exige tanto esforço muscular num caminho outrora percorrido num piscar de olhos. A lei do menor esforço é cruel com a bicicleta.

Desde muito pequeno, eu tive uma espécie de presciência que fazer barulho me faria existir com mais certeza aos olhos (e orelhas) dos meus contemporâneos do que desenvolver tesouros de inteligência. Era de qualquer forma menos fatigante.Então peguei pregadores e prendi dois pedaços de papelão que raspavam os raios do meu pneu traseiro. Daí saía pelas ruas, produzindo um número de decibéis surpreendente para os meus seis anos de idade e com a ausência (que perdurou) da carteira de habilitação de moto.

Parecia para mim que minha bicicletinha branca, assim “customizada”, não deixava que as meninas ficassem indiferentes. Contudo, eu não levava grande vantagem, já consciente de uma outra lei da nossa sociedade: chamar atenção tudo bem, mas depois é preciso saber se garantir…

Trecho traduzido do livro <Petit Traité de Vélosophie> escrito por Didier Tronchet.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *