Tráfego motorizado destrói relacionamento humano

No começo de novembro, o blog Fragmentos do cotidiano publicou um vídeo bem interessante da turma do Street Films de Nova Iorque.

O vídeo apresenta o trabalho acadêmico de Donald Appleyard que foi além dos custos com acidentes e avaliou alguns aspectos mais subjetivos do impacto negativo causado pelo transporte motorizado em vizinhanças.

Mesmo para aqueles com dificuldade em compreender o vídeo em inglês, é claramente perceptível pelos gráficos, como uma rua sem muito tráfego motorizado possui muito mais pontos de encontro e interação entre vizinhos. O estudo mostra também que quanto menos carros, maior é o sentimento de pertencimento da rua como um todo. Ao passo que os moradores de ruas com tráfego pesado mal conseguem descrever os detalhes, as fachadas e demais elementos da sua própria rua.

O vídeo na verdade não mostra nenhuma grande novidade, mas consegue apresentar mais indicadores irrefutáveis a respeito de um dos grandes problemas do nosso tempo: o carro.

O fato que o volume de tráfego na rua em que você mora, determina o número de amigos que você possui no mundo, tem uma significância enorme.

Mark Gorton
Executive Director, Open Plans

Infelizmente, a privatização dos espaços é uma tendência mundial. Havia uma época, não muito distante, onde várias atividades eram feitas comunitariamente, seja trabalho ou lazer (muitas vezes os dois ao mesmo tempo). Hoje em dia, mais e mais atividades, além de segregadas, são individualizantes.

Em Curitiba, tivemos essa semana um exemplo lamentável disso, a aprovação pela Câmara dos Vereadores da instalação de cancelas em ruas sem saída.

Mais uma vez se erra o alvo ao achar que se isolar é a solução. A vida atual se passa em ambientes fechados e nos acostumamos a isso. Dentro de casa, dentro da empresa, dentro do shopping, dentro da academia, dentro do clube, dentro da escola. E chegamos ao absurdo de achar natural que fechemos nossas ruas. Isso não passa de um condomínio fechado que se apropriou do espaço público. E o condomínio fechado é um dos grandes fatores de desintegração social e consequência direto do reinado do automóvel.

O trabalho de Donald Appleyard nos mostra que não é preciso erguer mais muros (seja de alvenaria, madeira ou de quatro rodas). Pelo contrário, precisamos de mais pontes entre nossos vizinhos de rua e bairro e isso acontece naturalmente ao promover um espaço de livre circulação para qualquer pessoa, homem ou mulher, jovem ou idoso.

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