Urbanismo brasileiro e o efeito Gotham City

Scalation
Escalation

Com os preparativos para a copa se aproximando, é possível perceber um ritmo mais acelerado de desenvolvimento em muitas cidades brasileiras (pelo menos naquelas que irão sediar jogos). São inúmeras grandes obras em andamento que seguem mais ou menos a mesma linha do que vem sendo feito nos últimos anos, só que agora de uma forma mais intensa.

O que isso quer dizer? Bom, vou falar de Curitiba que é onde acompanho mais de perto:

  • Linha verde – uma obra que já está em andamento há bastante tempo, um trecho de rodovia que corta a cidade e foi remodelada como via rápida urbana para comportar um volume maior de tráfego motorizado.
  • Avenida das Torres – via de ligação para o aeroporto que está sendo ampliada para aumentar a capacidade de tráfego e vai receber também uma ponte estaiada.
  • Anel viário de Curitiba – um binário que contornará o Centro da cidade, contando com trechos em 23 ruas passando por oito bairros, que devem ser revitalizadas para desafogar o trânsito na área central. Também irão contar com um novo sistema de monitoramento que inclue câmeras e painéis eletrônicos.

Um resumo das intervenções urbanas de mobilidade podem ser vistas no site do governo sobre a COPA2014. É possível reconhecer um padrão claro entre elas: aumento fluidez, volume e velocidade do tráfego motorizado e conectar regiões relativamente distantes da cidade por meio de corredores que tendem a se tornar áreas de passagem e não de convivência.

Obras menores que não estão atrelados diretamente ao pacote da COPA2014, seguem a mesma linha. São projetos para transformar ruas sem saídas e praças em cruzamentos.

Isso pode até tornar o deslocamento de carro mais rápido, mas não consigo deixar de pensar numa cena do final do filme Batman Begins (eles não cansam de fazer filme com esse cara!) :

Batman: Bem Sargento.
Jim Gordon: É tenente agora, você realmente começou algo, policiais corruptos estão assustados, tem esperança nas ruas…
Batman: Mas?
Jim Gordon: Nós ainda não pegamos Crane ou metade dos internados que ele soltou do Asilo.
Batman: Nós iremos, nós vamos recuperar Gotham.
Jim Gordon: E o que você me diz sobre o agravamento (escalation, no original em inglês)?
Batman: Agravamento ?
Jim Gordon: A gente começa a usar semiautomáticas, eles compram automáticas, a gente começa a usar Kevlar, eles compram projéteis que perfuram coletes e você está usando uma máscara e pulando de telhado em telhado. Olha só esse cara: assalto à mão armada, homicídio duplo. Tem uma queda pelo teatral, como você. Deixa sempre um cartão de visita.
Jim Gordon: [Gordon mostra ao Batman um saco plástico contendo o que parece ser uma única carta de baralho; Batman vira de frente e mostra um “Coringa”]
Batman: Eu vou cuidar disso.

Batman Begins

Atrair mais carros para as ruas, oferecendo-lhes condições mais favoráveis terá inexoravelmente uma consequência: mais carros, mais congestionamentos, mais poluição, mais acidentes. O filme do Batman é ficção, o fenômeno “escalation” não é. E ele funciona nos dois sentidos.

Obras que visem reduzir o tráfego, criem ruas mais calmas e priorize o comércio local irão produzir mais pedestres e mais ciclistas que precisarão apenas de ruas menores e mais calmas. David Byrne parece ter reconhecido isso no trabalho de Jan Gehl, um dos arquitetos mais famosos da atualidade por seus projetos voltado para as pessoas:

Essa parece ser a maneira como Gehl trabalha, fazendo aqui e ali, mudanças relativamente pequenas aos longos dos anos que acabam por transformar a cidade inteira, tornando-a um lugar melhor para viver.

David Byrne
Diários de bicicleta

O efeito Gotham City não é apenas uma comparação distante. Cidades que se preocupam apenas em ampliar o sistema de transporte para chegar cada vez mais longe comportando mais passageiros, criam bairros dormitório desertos durante o dia e regiões comerciais desertas durante a noite. Cidades que dão prioridade aos viadutos e grandes avenidas, extinguem a possibilidade de calçadas e praças como espaço de convivência. Isso tudo conduz a um aumento na violência e criminalidade. Curitiba é apenas o principal de vários municípios aglutinados. Um volume cada vez maior de pessoas trabalha em um município, mora em outro e estuda em outro. Construir mais corredores e instalar mais UPS pode até atacar os sintomas, mas não vai afetar a causa. Não vai evitar o aumento da poluição, congestionamento, individualização e abandono das cidades.

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