Vamos falar sério sobre por que os ciclistas infrigem leis de trânsito

imrs.phpSendo bem franca, eu tenho feito pouco da lei ao pedalar. Na minha vizinhança à noite, quando não tem ninguém por perto, eu avanço o sinal de pare. Dou uma paradinha no cruzamento, “proibido virar quando o sinal estiver vermelho,” e faço exatamente isso com a bike. Eu faço essas coisas … eventualmente.

“Eu também,” diz Wesley Marshall, já que estamos confessando. “Se eu estou num sinal vermelho do lado de um monte de carros, e não tem nenhum carro cruzando no outro sentido, Eu avanço o sinal vermelho pra me garantir minha posição na rua na próxima quadra, porque me sinto mais seguro fazendo isso.”

Eu tenho feito isto também, pela mesma razão: porque parece menos perigoso sair na frente do tráfego do que lutar por espaço numa rua sem ciclofaixa na hora que o semáforo fica verde. Marshall, um professor assistente de Engenharia Civil na Universidade de Colorado em Denver, suspeita, porém, que muitos motoristas possam não entender essa linha de raciocínio — que um aparente mau comportamento de ciclistas é às vezes um ato de defesa própria.

Talvez seja porque a gente não entende de verdade — e com certeza não falamos a respeito — a psicologia comportamental do ciclista. Talvez os motoristas imaginem que todos que fazem pouco caso da lei são como a caricatura do bike messenger de Nova Iorque, um suicida profissional que ri das leis de trânsito e dos idiotas que a obedecem.

“Eu não acho que todo mundo que está infrigindo a lei numa bicicleta é aquela pessoa,” diz Marshall. “Você não é aquela pessoa. Eu não sou aquela pessoa. Eu não sinto que estou arriscando a minha vida quando assumo esses comportamentos fora da lei — Eu sinto justamente o contrário.”

Na verdade, tem um monte de coisa que não sabemos a respeito do comportamento dos ciclistas, ou mesmo o que acontece quando as pessoas de bicicleta — em quantidades nunca antes vistas — usam uma infraestrutura que não foi feita para eles. Se você já pedalou em Portland, ou em Washington com alguém de Portland, certamente parece como se as normas sociais sobre leis de trânsito variam de cidade para cidade. Marshall, por exemplo, tem observado que ciclistas em Portland vigiam uns aos outros, coisa que não acontece por aqui.

Mas por que essas diferenças? À medida que pedalar se torna mais comum na cidade, a pressão dos próprios colegas vem logo em seguida? Ao construir mais infraestrutura cicloviária, os ciclistas tendem a respeitar mais o sinal vermelho?

Se alguns de nós violam leis de trânsito para ficar seguros , ela seria mais respeitada se as cidades criassem espaços mais seguros? (Eu não tô falando de uma rede segregada de trilhas para bicicleta no mato, e sim de ciclofaixas mais protegidas e sinalização própria para que motoristas e ciclistas compartilhem a rua em seu trajeto para os mesmos lugares.)

Essas questões sobre sociologia e infraestrutura apontam para algo que está acontecendo nas cidades que tem mais nuances  do que as retóricas mais acaloradas — malditos ciclistas infratores! — permitem. Marshall, que co-dirige a Active Communities Transportation Research Group com Kevin Krizek, quer esse comportamento infrator, por que as pessoas dizem que fazem (motoristas e ciclistas), e quando não fazem.

Como parte deste projeto de pesquisa, eles e aluno de doutorado Aaron Johnson e Dan Piatkowski  da Savannah State está fazendo uma enquete que eles esperam que possa reunir muitos dados sobre todos os nossos comportamentos (vá em frente e ajude a ciência, mesmo que você não seja ciclista).

A maioria de nós, independente do meio de transporte, infrigimos a lei em algum momento, aponta Marshall, seja dirigindo 10 km acima do limite de velocidade, ou cruzando a rua fora da faixa. Ainda assim, a gente não trata motoristas pé-de-chumbo com a mesma desaprovação dos ciclistas que furam sinais de pare, mesmo que o primeiro comportamento seja potencialmente mais perigoso do que o segundo. O que traz outra questão: os ciclistas são realmente mais prolíficos em infringir a lei?

Mais dados sobre o infrator dentro de nós poderia potentialmente ajudar a criar ruas mais seguras, até mesmo, imagina Marshall, um debate público mais produtivo sobre a coexistência de motoristas e ciclistas. Existe alguma evidência, por exemplo, que os ciclistas podem ter uma tendência maior para não andar na contramão e esperar o sinal vemelho quando tiverem ciclofaixas adequadas. Isso faz sentido por vário motivos.

“Ao tratar bem os ciclistas, você está dando um lugar onde devem estar,” diz Marshall. “Você está lhes dando respeito no sistema de transportes.”

Talvez isso deixe os ciclistas mais inclinados a respeitar as leis desse sistema. Ou pode ser que ao oferecer um espaço seguro, eles não sintam a necessidade de encarar a contramão para fugir de ruas movimentadas ou furar sinal vermelho pra evitar fechadas.

Infraestrutura influencia como pensamos osbre o nosso papel no espaço público (“o sistema não tá nem aí para mim, então eu mesmo preciso cuidar de mim”). Infraestrutura também dita fisicamente nosso comportamento. Na ciclofaixa em frente ao escritório do Washington Post, por exemplo, é praticamente impossível furar um sinal vermelho. Isso acontece porque o trânsito de bicicletas se enfileiram no cruzamento na sua pópria faixa do mesmo jeito que os carros fazem.

“Estão colocando bicicletas num sistema de transportes feito completamente para o carro. Se isso parecer um dos motivos pelos quais as pessoas se comportam assim, isso é um argumento que para ter melhores ciclistas tem que ter melhor infraestrutura,” diz Marshall. “Se as pessoas estão desobedecendo porque gostam de se arriscar, aí é diferente. Se esta for a resposta que a gente encontrar — ciclistas simplesmente gostam de se arriscam mais do que qualquer outra pessoa  — isso vai conduzir a soluções diferentes.”

Admito que lá no fundo, eu às vezes ignoro as leis não por causa da minha segurança pessoal, mas porque eu sei que essas leis, assim como a infraestrutura, não foram criadas pensando nos ciclistas . E eu digo isso como um ciclista que tem um carro, não um guerreiro cultural: me parece injusto — por razões que a pesquisa de Marshall pode articular melhor do que eu — que os ciclistas sigam todas as regras para os carros (não passar no vermelho) ao mesmo tempo em que se nega as mesmas cortesias (como o direito de ocupar a faixa).

Quando você não tem um rádio pra ouvir, ou passageiros para conversar, você tem muito tempo pra ficar pensando neste tipo de coisa enquanto você está se deslocando.

Este artigo foi originalmente publicado em inglês no Washington Post por Emily Badger em 9 de janeiro de 2015.

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