Sobre bicicletas, planejamento e Curitiba

Após um batepapo com Marcos Traad no Programa Transitando, eu passei a limpo algumas das questões levantadas no programa.

garagem

COMO O PLANO DIRETOR TEM TRABALHADO DE MODO A INCENTIVAR O USO DA BICICLETA COMO MEIO DE TRANSPORTE?
Existem projetos de expansão da malha cicloviária, de instalação de paraciclos, de bicicletas públicas e até integração com transporte coletivo nos terminais.

Mas o plano diretor municipal – PDM, é um instrumento de planejamento municipal que possui uma tendência em se concentrar nos aspectos físicos e de infraestrutura. Um trabalho sobre Políticas públicas voltadas para o cidadão feito na FAE, mostra como o modelo daqui ainda é linear (setorial) onde cada área é tratada isoladamente. Curitiba ainda não adotou um modelo integrado no que diz respeito as políticas públicas de mobilidade.

Além disso, aqui no Brasil, ainda temos pouca experiência no modelo de gestão participativa próprio do PDM e o envolvimento da sociedade poderia ser muito melhor aproveitado.

QUAL A IMPORTÂNCIA DE INCLUIR CICLOVIAS NO PLANEJAMENTO URBANO?
Em todas as cidades que hoje são amigas da bicicleta, a principal medida inicial foi a construção de uma rede cicloviária.

Mas isso é só o primeiro passo. Um estudo sobre o planejamento de cidades nos 5 continentes mostra que é preciso implementar medidas de forma integrada, considerando, por exemplo, as medidas comportamentais e os programas de incentivo.

QUANTOS KM DE CICLOVIAS JÁ EXISTEM EM CURITIBA?
Ciclovias mesmo são poucos, acho que fica em torno de 20km. Boa parte da rede cicloviária acontece em passeio ou rua compartilhados. Somando tudo fica em torno de 190 km. Para ter uma base comparativa, Berlim possui uma rede de 1.000km.

QUAIS AVANÇOS TEM SIDO OBSERVADOS DESDE A IMPLANTAÇÃO DESSAS CICLOVIAS EM CURITIBA?
Com as obras dos últimos 2 anos, a percepção é que houve um aumento de ciclistas e eles passaram a ser algo mais comum, mais esperado no trânsito. Alguns levantamentos na via calma, mostram que cada vez mais as pessoas estão usando a ciclofaixa em vez de usar a canaleta. Mas ainda não foi feito uma pesquisa abrangente que tenha verificado de forma objetiva qual foi o avanço. Lembrando novamente que infraestrutura é só um dos componentes necessários para promover a bicicleta.

COMO CONVENCER OS MOTORISTAS DE QUE O CICLISTA NÃO OCUPA UM LUGAR INFERIOR, MAS IGUAL AO SEU NO TRÂNSITO?
O ponto principal, é fazer com que voltemos a perceber as pessoas, não enxergá-las como objetos ou máquinas. A vida com o carro, nesse sentido, desumaniza a gente.

Mas de acordo com a teoria sociotécnica, a imagem de qualquer artefato tecnológico, no caso a bicicleta, é um processo histórico, coletivo. Portanto, essa aceitação é um processo cultural que vai levar um tempo pra ocorrer. Isso é natural. Mas ele pode ser acelerado, se as políticas públicas, além das ciclovias, ajudarem a reconstruir essa imagem com medidas concretas. Por exemplo, concedendo privilégios às pessoas que adotem uma mobilidade ativa, porque isso vai ser melhor para cidade e para todos.

COMO OS CICLISTAS DEVEM SE COMPORTAR PARA CONTRIBUIR PARA UM TRÂNSITO MELHOR?
Os ciclistas devem se comportar como todos os demais. Respeitando o próximo e respeitando a vida.

Mas apenas por ser ciclista já é uma contribuição e tanto. Basta imaginar que se as pessoas não usassem carro e moto, milhares de vidas seriam poupadas no trânsito, a qualidade do ar melhoraria drasticamente e os congestionamentos seriam raridade.

NO AMBIENTE URBANO, QUE VANTAGENS A USO DA BICICLETA COMO MEIO DE TRANSPORTE PODEM TRAZER?
É uma rede de efeitos interconectada e complexa. Mas as vantagens podem ser observadas em 4 grandes áreas: economia, saúde, meio ambiente e sociedade. Desde o nível individual até a cidade como um todo. Alguns dos efeitos são: melhoria da saúde pública por conta da redução da poluição, acidentes e índices de obesidade, maior disponibilidade de espaços públicos, redução da poluição sonora, transporte coletivo mais rápido e acessível, estímulo ao comércio e empreendedor local, maior autonomia de crianças e por aí vai…

NA SUA OPINIÃO, CURITIBA ESTÁ PREPARADA PARA INTEGRAR OS CICLISTAS?
Ainda não. As gestões municipais anteriores fizeram altos investimentos no transporte motorizado. Nas últimas décadas ficou mais díficil pedalar e mesmo o transporte coletivo sofreu queda. E isso é meio óbvio, basta observar quantas pessoas no seu trabalho ou no prédio onde você mora usam a bicicleta diariamente? Ou quantos adolescentes vão de bicicleta para escola? Ainda é um número baixo.

Mas isso pode ser revertido e já começamos a trilhar esse caminho. É preciso agora um planejamento integrado que envolva as diversas áreas do governo: trânsito, urbanismo, saúde, turismo, esporte, economia, meio ambiente, obras e transporte. É preciso ter metas claras de longo prazo, pensando além das medidas pontuais.

Veja abaixo a reportagem original.

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