Capacete para motoristas ou Por uma nova epistemologia de segurança viária

Essa semana eu escutei mais uma vez: “Você tem que usar capacete quando está andando de bicicleta!” Por isso, neste artigo gostaria de investigar qual é a visão de mundo que está por trás desse discurso. A partir dessa imposição em relação ao capacete, dois pressupostos são evidentes:

  • Andar de bicicleta é perigoso
  • Andar de bicicleta é mais perigoso do que andar de carro

capacete

Andar de bicicleta é perigoso
Lembrando que não estou falando de provas de downhill, competições de pista ou práticas esportivas. No contexto da mobilidade urbana, em países com uso intenso da bicicleta não se usa capacete e não se tem mais fatalidades do que no Brasil, pelo contrário é mais seguro andar nessas cidades. Isso por si só, demonstra que o perigo não está no ato de pedalar ou na bicicleta em si. E isso é até meio óbvio, a bicicleta é um veículo que pesa em torno de 12kg, ou seja, qualquer adulto saudável consegue carregá-la sem esforço. E se desloca em média a 15km/h, não muito diferente da velocidade média de um corredor numa prova de 10km. Ou seja, um veículo compatível com a escala humana.

Alguns defensores do capacete podem argumentar que “eu posso cair, bater a cabeça e morrer”. Pode, é claro que pode, não é algo tão comum assim e o capacete não garante que isso não vá acontecer. Um excelente artigo escrito por Daniel Guth e João Lacerda fala mais sobre isso. Mas volto a dizer, não sou contra o capacete, ele pode salvar vidas. Mas são exceções, não a regra. O discurso “você tem que usar capacete” pressupõe um perigo constante, inerente ao ato de pedalar. E existem milhões de ciclistas que andam sem capacete e com segurança para provar o contrário. Na verdade, é o contexto que pode tornar a bicicleta perigosa, então pode-se recomendar o uso do capacete, mas consciente de que isso não soluciona o verdadeiro problema e pode até mesmo encobri-lo. Isso nos leva ao segundo pressuposto.

Andar de bicicleta é mais perigoso do que andar de carro
Neste caso, os argumentos são ainda mais objetivos. Em 2012, houveram 12.336 mais óbitos de ocupantes de carro do que de ciclistas (14163 e 1827, respectivamente). E não é simplesmente porque existem mais carros do que bicicletas no trânsito. No Brasil, os deslocamentos de carros não chegam a ser 3 vezes maior que os deslocamentos de bicicletas (19% e 7%, respectivamente). Entretanto, a quantidade de óbitos de ocupantes de carro são quase 8 vezes maior que a quantidade de óbitos de ciclistas (31% e 4%, respectivamente). Mas é importante lembrar que praticamente 100% dos acidentes com morte envolvem veículos motorizados. E isso não é uma realidade apenas no Brasil, olha só o gráfico produzido pela Campanha Motoring Helmet da Dinamarca.
Nota: Os dados foram retirados dos relatórios da Confederação Nacional das Indústrias (CNI, 2015) e do Observatório Nacional de Segurança Viária (ONSV, 2014).

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Olhando esse gráfico dá para perceber que campanhas em prol do uso do capacete por ciclistas já não parecem prioritárias. Isso é um exemplo de uma medida que à primeira vista oferece um benefício óbvio (capacete protege e salva vidas), mas possui uma motivação original em tirar o foco do real problema. Chama-se “culpabilização da vítima” e é possível buscar na história, exemplos que julgaram as ações aparentemente “benéficas”, sem considerar a visão de mundo que as originou, ignorando, dessa forma, os desdobramentos dessa escolha. Para sair um pouco do campo teórico, vamos analisar um caso na própria área da mobilidade urbana: Jaywalking.

Jaywalking é um termo disseminado nos EUA na década de 20. Pode ser traduzido como o famoso: “atravessar fora da faixa”. Uma infração de trânsito que foi importada para o Brasil e visa aumentar a segurança viária e proteger o pedestre.

calacada-carro Esse é um benefício óbvio não é? Afinal de contas, muitas pessoas deixaram de correr risco ao evitar andar e cruzar as ruas em qualquer lugar. Mas é importante lembrar que no começo do século passado, as ruas eram espaços públicos onde todos podiam transitar, com o aumento de carro nas ruas, os acidentes aumentaram significativamente, em vez de restringir o acesso e a velocidade dos carros, a escolha foi tornar a rua ilegal para as pessoas, adotando uma expressão que, na época, possuía um sentido altamente pejorativo. Para quem quiser entender um pouco mais, um episódio do show Adam ruins everything apresenta esse processo de forma breve e com um humor ácido. As consequências disso todos sabem. Cidades construídas inteiramente para acomodar os carros.

Assim como expulsar as pessoas da rua, exigir o uso do capacete não resolve o problema e até cria outros maiores. Então a gente simplesmente deixa de recomendar o uso do capacete, considerando que ele efetivamente ajuda a reduzir lesões e mortes? Claro que não, volto a dizer não sou contra o capacete e reconheço que ele protege o ciclista em alguns casos. Porém, reforço que a questão é a visão de mundo construída em torno desse discurso, onde o carro não é questionado nem incluído nessa equação. Se o intuito é proteger a vida e é um fato comprovado que ocupantes de veículos motorizados se acidentam mais que ciclistas tantos em termos absolutos quanto relativos porque ninguém sugeriu que motoristas usem capacete? Isso reduziria muito mais lesões e mortes e aumentaria a consciência sobre o problema real. Não é essa a intenção? E olhe que eu perguntei pra quem sabe de muita coisa. Uma pesquisa no google só traz notícias que relatam o absurdo das multas equivocadas para motoristas. Mesmo com toda a discussão sobre o excesso da motorização, a cultura do carro ainda está arraigada e algumas premissas básicas continuam intocadas.

Partir de uma visão de mundo que realmente valorize a vida e as relações humanas, produziria discursos ligeiramente diferentes:

Motorista:

“Eu reconheço que um carro gera um risco de acidente muito grande e tenho medo de machucar você ciclista. Será que você poderia usar o capacete para reduzir as chances de se machucar?”
“Vou dirigir mais devagar”
“Vou usar menos o carro”

Campanhas:

Ciclista e motorista, por favor usem o capacete.

Esse seria um avanço tímido,. o ideal mesmo seria que efetivamente o carro seja menos usado criando alternativas mais convenientes. Dessa forma, eliminando as condições de trânsito que podem gerar acidentes como muitas cidades já começaram a fazer em todo o mundo:

Pode-se notar pelas manchetes que existem diferentes níveis de compromisso e amadurecimento em relação a isso, mas elas trazem em comum uma releitura do que é o trânsito ideal.

Capacete? A gente pode usar, especialmente motoristas. Mas a gente precisa conversar sobre algumas outras coisas antes…

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