A cidade é o campo, o campo é a cidade

Este é o título original do artigo Reflexões sobre o estilo de vida urbano publicado no dia 08 de novembro de 2015 no jornal O Imparcial.

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Há 10.000 anos atrás surgia a agricultura e por causa disso as cidades. Foi a capacidade de controlar a produção de alimentos de forma estável que viabilizou os primeiros assentamentos humanos permanentes. Ao longo da história, campo e cidade sempre estiverem muito ligados. Carolyn Steel, autora do livro Hungry City demonstra como até o século XIX, a produção e o comércio de alimentos em praças e mercados determinava a configuração do espaço público urbano e as relações humanas. Porém, com o nível tecnológico atual, a proximidade física tornou-se dispensável, transformando os fenômenos em torno do alimento em algo anônimo. Em vez de valorizada, a comida passa a ser temida, gerando desperdício.

O espaço particular também era moldado pela comida. Hortas domésticas e pequenos animais de criação eram comuns. E a matéria orgânica que sempre foi o alimento do solo, hoje é considerado lixo. A mesa de jantar, antes um local diário de reunião familiar e de amigos, caiu em desuso numa sociedade cada vez mais adepta do micro-ondas e do fast food. Essa lógica imediatista permeia os demais aspectos do estilo de vida dominante que passa a ter o quarto individual como peça central da casa.

Hoje, mais da metade da população mundial vive em áreas urbanas. E a tendência é continuar aumentando, criando cidades onde se tem acesso a produtos internacionais nos shoppings e hipermercados. Onde se realiza deslocamentos cada vez maiores. Onde se tem pessoas com possibilidades de assumir dois ou mais empregos. Crianças com uma agenda repleta de atividades. Tudo isso está ligado à conveniência da ampla oferta de alimento e o surgimento dos alimentos prontos ou congelados, acentuando o materialismo e o individualismo.

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Todavia é preciso refletir como essas escolhas afetam nossas vidas, nossos relacionamentos e o lugar onde vivemos. Esses hábitos, são muito recentes considerando nossa história. Alguns elementos tem pouco mais de um século como, por exemplo, o carro e a geladeira. Outros são tão novos que ainda eram ficção científica há poucas décadas, como a internet e o “telefone esperto”. Os efeitos da urbanização extensiva já transcenderam as cidades e atinge até mesmo as áreas rurais. Neil Brenner, professor de urbanismo em Harvard, afirma que a nossa “era urbana” não é caracterizada essencialmente pela migração para grandes cidades, e sim pelo fato de que mesmo as paisagens, ambientes e territórios não-urbanos estão sendo transformados como apoio ao processo contemporâneo de urbanização.

Não se trata de negar a tecnologia simplesmente retornando ao passado, mas, reconhecer que fomos liberados das relações sociais presenciais e do contato direto com a natureza. Se acharmos que isso vale a pena ser resgatado, é preciso um esforço intencional, baseado na consciência do processo pelo qual passamos hoje. Quais os efeitos de uma vida cada vez mais online e cheia de compromissos para uma criança que passa cada vez menos tempo com seus pais e o livre brincar na rua é cada vez mais escasso? Por que temos necessidades cada vez maiores de: alimentos, energia, distâncias, produtos e outros recursos? Enfim, como esses novos hábitos de consumo afetam nosso bem-estar? Ou ainda, o bem-estar das futuras gerações?

Isso significa passar menos horas no emprego, fazer refeições mais demoradas, reduzir os compromissos, gastar menos tempo conectado e moderar o consumo frequente de aparelhos e máquinas de última geração. Isso não é necessariamente uma privação. Schumacher já escrevia sobre isso há mais de 40 anos atrás no seu livro Small is beautiful. Rodas de histórias e jogos de tabuleiro são mais enriquecedores do que a televisão. Criar artefatos de madeira ou tecido com o seu filho são mais adequados para o desenvolvimento cognitivo do que os brinquedos eletrônicos. Cuidar de uma horta comunitária é mais saudável e barato do que ir ao supermercado. Em resumo, menos é mais!

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Nesse sentido, a palavra de ordem é desacelerar. E a imagem mais simbólica disso é a situação atual da mobilidade urbana. É cada vez mais evidente como a bicicleta é mais eficiente do que o carro. Não apenas porque ela polui menos e gera menos mortes, mas também por ser mais rápida, por mais contra-intuitivo que isso possa parecer. É claro que numa pista de corrida, um carro ganha disparado de uma bicicleta. Mas no contexto das grandes cidades, a lógica individualista tem levado às vias urbanas a um ponto de saturação. Num estudo considerando, além do período de deslocamento, Paul Tranter mostrou que o tempo, energia e dinheiro gastos com o carro são cada vez mais altos.

Note que em nenhum momento eu disse que isso é mais fácil. Contudo, são atitudes que melhor nos alimentam física, mental e espiritualmente. Toda essa abundância traduz-se em: mais tempo com a família, crianças com mais autonomia, adultos com mais habilidades, relações humanas mais fortes entre vizinhos, alimentação mais saudável e maior proximidade com a natureza, fazendo com que as casas voltem a ser lares e espaços de criação, em vez de um mero espaço passivo de consumo.

No centro disso tudo, está nossa relação com a comida. Desde o seu plantio, passando pela preparação e consumo, até o manejo dos resíduos. A popularização da agricultura urbana é fundamental para criar cidades resilientes de forma econômica, social e ecológica. Permeando outros aspectos do viver urbano como transporte, lazer, educação, cultura, saúde e muitos outros. Afinal de contas, a agricultura é a mãe da cidade. E como família, elas devem conviver harmoniosamente.

Sugestões de músicas de acompanhamento:

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